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Clínica antirracista: escuta, história e reparação

9 de dez. de 2024
2 min de leitura

Atualizado: 23 de mar.

“Uma das formas de exercer autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo.”

Neusa Santos Souza


Embora já tenham se passado 137 anos desde a abolição da escravatura no Brasil, o racismo, enquanto sistema de dominação, exclusão e violência, segue presente e perpetuando desigualdades estruturais, neste contexto, a Psicologia tem o dever ético de lançar um olhar atento às consequências desse cenário para a saúde mental das pessoas racializadas.


Autores como a psiquiatra brasileira Neusa Santos Souza e o psiquiatra e filosofo francês Frantz Fanon, foram pioneiros ao explorar a relação entre psiquismo e racismo. Seus trabalhos mostram como o racismo estrutural deixa marcas profundas e duradouras na construção da identidade, na autoestima e no bem-estar psíquico da população negra. Essas marcas atravessam gerações, moldando a forma como as pessoas negras se percebem e se relacionam com o mundo. O trauma gerado por essa vivência não é apenas individual, mas também coletivo, e requer uma abordagem terapêutica sensível e comprometida.


Grada Kilomba, em seu livro Memórias da Plantação, reforça a importância de as pessoas negras se apropriarem de suas narrativas, contando suas histórias e elaborando suas dores. Ela afirma: “A questão: ‘O que o racismo fez com você?’ não tem nada a ver com vitimismo, tem a ver com empoderamento, pois precede o momento no qual alguém se torna o sujeito falante, falando de sua própria realidade.” Kilomba nos lembra que apropriar-se do discurso sobre o impacto do racismo em nossas vidas é um ato de resistência e de “descolonização”. Esse processo promove uma identificação positiva com a negritude, fortalece o autoconhecimento e contribuindo para o desenvolvimento de um sentimento de segurança interior.


No campo da psicoterapia, a capacidade de compreender a complexidade dos fenômenos psíquicos relacionados ao racismo pode promover espaços de escuta conscientes sobre os atravessamentos deste tema na saúde mental. Cuidar de si em um contexto social que insiste em desumanizar corpos negros é um ato de resistência e transgressão e a clínica antirracista possibilita não apenas o alívio das dores individuais, mas também a afirmação da dignidade coletiva.









 
 
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